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Instalações comerciais e industriais do Brasil ainda têm pouca adequação para evitar incêndios

Confira levantamento que mostra estados com mais incidência de incêndios estruturais.

Da Redação
Sprinklers auxiliam no combate a incêndios.

Sprinklers auxiliam no combate a incêndios.

O número de incêndios em instalações industriais e comerciais no Brasil poderia ser menor se as edificações contassem com equipamentos adequados de proteção contra incêndios. Dentre eles, hidrantes, extintores, mangueiras específicas, sinalizações de emergência, detectores, alarmes e sprinklers (chuveirinhos automáticos para combate às chamas).

Segundo Marcelo Lima (foto abaixo), diretor-geral do Instituto Sprinkler Brasil (ISB), organização sem fins lucrativos que difunde o uso do equipamento nos sistemas de prevenção e combate a incêndios em instalações industriais e comerciais no país, um dos problemas enfrentados por quem trabalha com prevenção é a falta de estatísticas oficiais sobre ocorrências de incêndios pelo país.

Para tentar amenizar esta situação, o ISB faz levantamentos diários dessas ocorrências por meio da internet, em sites de notícias. Embora esteja longe de mostrar o total de casos, em território nacional, serve, de certa forma, como um norte. "Começamos a contabilizar os incêndios noticiados pela imprensa por falta de dados estatísticos oficiais no país. É um indicador interessante para acompanharmos o volume e onde estão acontecendo. A partir daí, conseguimos ter um desenho de como os incêndios estão impactando nos negócios pelo país”.

O levantamento, por exemplo, mostra que Santa Catarina é o estado com mais notificações de incêndios estruturais em 2020.  Os dados, revelam 124 registros no estado catarinense até o mês de agost, 40,32% a mais que o mesmo período do ano passado. Ainda aponta São Paulo e Rio Grande do Sul entre os líderes nos oito primeiros meses deste ano, com 91 e 84 ocorrências, respectivamente. 

O Instituto capturou 676 ocorrências no Brasil de janeiro a agosto deste ano, registrando alta de cerca de 16% em relação ao mesmo período de 2019, quando foram contabilizados 571 registros.

Entre as diferentes categorias de estruturas, os estabelecimentos comerciais (lojas, shopping centers e supermercados) registraram o maior número de notícias na imprensa em 2020, com 158 ocorrências, seguidos por depósitos, com 135, e indústria, com 121.

Os sinistros são os chamados "incêndios estruturais", ou seja, aqueles que poderiam ter sido contornados com a instalação de equipamentos de segurança e ocorreram em depósitos, hospitais, hotéis, escolas, prédios públicos, museus, entre outros.

Mapa mostra quantidade de incêndios pelo Brasil

O ISB disponibiliza em seu site o Mapa de Incêndios, ferramenta que oferece estatísticas anuais de ocorrências noticiadas pela imprensa. 

O recurso apresenta os edifícios comerciais e industriais atingidos pelas chamas por todo o Brasil, com link de direcionamento para a matéria publicada na mídia.

Os filtros disponibilizados permitem aos usuários refinar as buscas por estado, ano, mês ou ocupação do caso apurado. E até fazer comparativo de um estado com outro. 

Confira o MAPA

 

Empresas sabem do risco que correm, mas...

As empresas com operações no Brasil atribuem alta relevância a riscos de incêndio para suas operações, mas é pequeno o número das companhias que já conta com sistemas mais avançados de combate às chamas em suas instalações. 

Os dados constam de pesquisa realizada pelo Instituto Ipsos junto a empresas multinacionais e de capital nacional com mais de 250 funcionários. 

PESQUISA - Uma pesquisa, feita com 300 pessoas, responsáveis ou que participam diretamente na tomada de decisão de investimentos de sistemas prediais das empresas entre os dias 1º e 28 de maio deste ano, com margem de erro de 5,7 p.p. em todas as regiões do Brasil, mostram dados surpreendentes.

Eles mostram que 77% das empresas consideram muito importante o risco de incêndio para seus negócios e que 82% dizem ter clareza do impacto que esta ocorrência pode gerar para suas operações. 

A pesquisa mostra ainda que 85% das companhias dizem considerar as condições de prevenção a incêndio na hora de contratar um espaço (prédio ou galpão) para abrir unidades de produção ou distribuição. 

Entretanto, o discurso não bate com a prática. O levantamento mostrou que das 300 empresas entrevistadas pelo Ipsos, apenas 36% contam com sprinklers em suas instalações. 

O levantamento mostrou que o uso de sprinklers é maior entre as multinacionais. Ao todo, 48% das empresas estrangeiras, com operações no país, ouvidas pelo levantamento, disseram ter o equipamento em suas operações. Entre as empresas nacionais, o índice é de 34%. 

O porte também influi na decisão. O índice de uso dos aparelhos em empresas com mais de 500 funcionários é de 45%. Entre empresas menores, com 250 a 499 funcionários, o percentual é de 28%. 

 

Nem todas estão de fato preparadas para enfrentar um incêndio

Segundo Marcelo Lima os dados da pesquisa mostram que há sensibilidade para o tema incêndio, “mas as empresas não estão de fato preparadas para enfrentar esta situação, o que pode afetar a viabilidade do negócio”.

E as fragilidades não estão somente nas instalações. A pesquisa mostra que a gestão das empresas ainda não absorveu integralmente o risco de incêndio em seu planejamento estratégico.   

O levantamento mostrou, por exemplo, que apenas 54% das empresas entrevistadas afirmam categoricamente que contam com plano estruturado de retomada de negócios em caso de incêndio. O índice é de 51% entre as empresas de capital nacional e de 65% entre as empresas multinacionais. 

O controle da cadeia de suprimentos também apresenta fragilidades. A pesquisa mostra que 57% das empresas afirmam categoricamente que solicitam planos de prevenção para seus parceiros de negócios e fornecedores de insumos. Neste caso, a prática e adotada de forma mais consistente (59%) entre as empresas de capital nacional que nas multinacionais (51%). 

“A maioria das empresas não vivenciou um grande incêndio e isso torna o risco um pouco distante de sua realidade”, avalia Lima. Segundo o levantamento, 30% das empresas (a minoria) disseram já ter sido afetadas por um incêndio em sua história. E destas, 46% disseram que o impacto foi baixo e 35% avaliaram como moderado. Apenas 16% dos respondentes disseram que a ocorrência prejudicou as operações e levou à interrupção do trabalho. 

O levantamento Ipsos avaliou ainda o perfil de investimentos em sistemas de combate a incêndio nas empresas. De acordo com a pesquisa, 71% dos respondentes gastam exclusivamente o previsto em lei. Apenas 22% investem acima do exigido pelas autoridades. 

Entre as empresas brasileiras esse índice é de 19%. Entre as multinacionais, sujeitas a controles globais mais rígidos, 35% das empresas investem acima do que prevê a legislação brasileira de prevenção e combate a incêndio. 

“O Brasil vem avançando em protocolos para este risco, mas ainda há deficiências na legislação. Isso explica o investimento maior das multinacionais, que têm que prestar contas aos controladores lá fora”, avalia Lima. 

 

Teste mostra como funcionam os splinkers

Mas os splinkers são realmente eficientes? No vídeo abaixo a demonstração realizada dá a resposta. Ela foi feita em laboratório da FM Global, companhia de seguros com sede nos Estados Unidos, com escritórios em todo o mundo, especializada em serviços de prevenção de perdas, e demonstra esta diferença com duas cargas idênticas em chamas, sendo uma armazenada em um local com sprinklers e a outra sem este equipamento à disposição.

Segundo Marcelo Lima, do ISB, não há estatística sobre o desempenho do produto no Brasil e a referência são de situações nos Estados Unidos, onde o equipamento proporcionou resultados positivos em cerca de 95% dos casos.

Lima, no entanto, faz uma ressalva: a de que isso só se consegue com um bom projeto, instalação adequada e manutenção preventiva. Ele destaca ainda que há no mercado muitos produtos de combate a incêndios de má qualidade, o que prejudica o resultado esperado.

 Assista ao vídeo:

 

Empresa de SC diz que de cada 100 projetos, apenas 4 instalam sprinklers

O engenheiro Salomão Peruzzo Filho (foto ao lado), diretor e responsável técnico da SPF Engenharia, empresa com sedes em Lages e Joinville, Santa Catarina, ressalta que o mercado tem caminhado, principalmente nos últimos dois anos, para uma maior conscientização quanto à prevenção a incêndios industriais e comerciais.

A empresa,  especializada em projetos e execução de prevenção contra incêndio, tem cinco anos e está localizada no estado em que, segundo o levantamento do ISP, registrou aumento no registro de incêndios este ano. “Quando há essas ocorrências sentimos uma procura maior pelos serviços”, diz.

A pandemia, como em muitas outras áreas, jogou água na fervura de um crescimento ainda maior, o que fez os negócios se manterem estáveis nos últimos meses. Mas é a preocupação de muitos empresários em manterem seus negócios seguros que faz os clientes aos poucos voltarem.

O custo de ter uma indústria ou comércio dentro do que a legislação exige, em relação à prevenção de incêndios, costuma pesar na planilha de custos de qualquer negócio, mas também ajuda na redução do valor do seguro.

As seguradoras costumam ter uma precificação menor para quem atende a todas as exigências da legislação  - e em muitos casos se não cumprem costumam nem aceitar o seguro. “Se além de atender o que determina a lei a indústria ou empresa tem itens extras de prevenção, isso melhora muito a aceitação do risco”, diz Filho.

Além dos itens considerados vitais na prevenção a incêndios, o engenheiro destaca que os sprinklers podem ser um dos itens extras. A questão é que é produto exige um investimento maior e não são todos os que optam por sua instalação.

De acordo com Filho, de cada 100 projetos de prevenção, apenas quatro optam pelo equipamento, o que significa 4%.  Mas ressalva: “dependendo do porte da indústria ou comércio, e o risco que tem de pegar fogo, vale o investimento”.

A vantagem, segundo o engenheiro, é que o equipamento “age sozinho”, ou seja, ao detectar calor excessivo libera a água, sem necessidade de ninguém acionar algum dispositivo. “Já hidrantes, extintores etc precisam do fator humano para entrar em operação”, explica, o que dá ao equipamento uma eficiência maior em muitos casos.

Nos casos em que não é possível dispersar água, como em ambientes com equipamentos de informática, por exemplo, pois isso iria danificar os hardwares, os sprinklers liberam gás carbônico (CO2), pois ele  afasta o oxigênio da área que está queimando e, com isso, apaga o fogo.